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Boldo-do Chile

30 jan

Parte utilizada: Folhas

Família: Monimiaceas

Originário do Chile e do Peru foi naturalizado nas regiões montanhosas mediterrâneas e na costa oeste dos Estados Unidos. Arbusto frondoso, pequeno e elegante, o Boldo-do-Chile é pertecente à família das Monimiaceas, atingindo altura máxima de 6 metros. Possui gosto amargo e seu cheiro lembra a cânfora e a hortelã.

O Boldo-do-Chile era utilizado pelas comunidades indígenas dos Andes Chilenos, que a aplicavam em casos de luxações e dores reumáticas. Seu nome é uma homenagem ao botânico espanhol D. Boldo.

Arqueólogos acharam evidências do uso de 22 plantas medicinais, entre elas, o Boldo, em um sítio arqueológico no Chile, na área de Monte Verde, datado de 12.500 anos. Exploradores da América do Sul observaram que os nativos usavam as folhas desta planta na culinária, assim como agente carminativo, para o tratamento da gota, das desordens do fígado, da bexiga e da próstata. Em 1875, o Boldo-do-Chile passou a ser empregado pelos farmacêuticos britânicos e americanos para o tratamento de disfunções do estômago, fígado e bexiga, bem como sedativo leve.

O Boldo-do-Chile contém alcalóides, óleo volátil, flavonóides, resina, taninos e glicolipídeos. Estudos científicos comprovaram que a boldina, o mais importante alcalóide da planta, é um dos principais responsáveis pela eficácia das propriedades hepatoprotetoras e coleréticas.

Possui ação hepatoprotetora, aperitiva, digestiva, levemente laxante, colerética (estimula a produção da bile do fígado) e colagoga (estimula a secreção da bile pela vesícula biliar), dobra a secreção biliar e fluidifica a bile. As preparações de Boldo-do-Chile ativam a secreção salivar e gástrica.

Muitos acreditam, erroneamente, que possuem no quintal o Boldo-do-Chile (Peumus boldus). Entretanto, essa planta é raríssima no Brasil. A confusão deve-se ao fato de que outras plantas também são chamadas de Boldo, como o Boldo-da-terra (Coleus barbatus ou Plectranthus barbatus) mais facilmente encontradas nos quintais, e o Boldo-baiano ou falso Boldo (Vernonia condensada) . Menos comuns ainda são o Boldo-miúdo ou Boldo-português e o Boldo-chinês.

O Boldo-do-Chile é contra-indicado em casos de obstrução das vias biliares. Também não deve ser utilizado em crianças, gestantes ou lactantes.

Fonte: SAAD, G.A. et al. Fitoterapia Contemporânea. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

TESKE, M.; TRENTINI, A.M.M. Herbarium – Compêndio de Fitoterapia. Curitiba: Editora Herbarium, 1995.

Fitoterápico melhora os sintomas da endometriose

14 mar

CLÁUDIA COLLUCCI

Um fitoterápico à base de uma planta conhecida como “unha-de-gato” tem melhorado os sintomas da endometriose, doença que causa infertilidade feminina e dor nos períodos menstruais.

Intrigados com o grande número de pacientes que tomam o remédio por conta própria e relatam melhora, pesquisadores começaram a testá-lo cientificamente.

Os resultados do primeiro estudo controlado, feito pelas universidades federais de São Paulo (Unifesp) e do Maranhão (Ufma), em ratas, mostraram que a unha-de-gato conseguiu reduzir em 60% as lesões causadas pela endometriose.

Na doença, o tecido que reveste o útero (endométrio) sai fora dele e atinge outros órgãos da pelve, como intestinos e bexiga. Estima-se que 6 milhões de brasileiras sofram da doença.

Agora, na fase clínica do estudo, o fitoterápico será dado a mulheres e comparado com placebo ou medicamentos hormonais usados no tratamento tradicional da doença. A hipótese é que a planta possua propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras (que melhoram o sistema imunológico).

Antes mesmo dos resultados do estudo clínico, a unha-de-gato tem sido prescrita a pacientes da Unifesp que já usaram, sem sucesso, drogas hormonais ou para aquelas que não podem usar esse tipo de medicamento.

“Os relatos de melhora dos sintomas, principalmente da dor, surpreendem. Eu dei para a minha mulher tomar. Ela tem endometriose e a medicação hormonal não estava funcionando”, diz Eduardo Schor, coordenador do ambulatório de endometriose e dor pélvica da Unifesp e um dos autores do estudo.

Segundo ele, a unha-de-gato parece diminuir o processo inflamatório causado pela endometriose na região pélvica. Os pesquisadores ainda não sabem se a planta pode ser usada para ajudar mulheres com dificuldade para engravidar.

“Não não se sabe, por exemplo, se ela altera a espessura de endométrio ou dos mecanismos de ovulação”, explica Schor.

Também ainda deverá ser definida a dose ideal do fitoterápico para cada paciente. No comércio, existem cápsulas de 150 mg, feitas a partir da casca da planta.

O ginecologista Carlos Alberto Petta, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diz que, do ponto de vista conceitual, a unha-de-gato pode melhorar a dor de qualquer processo inflamatório.

“O problema é que, em se tratando de dor, o efeito placebo é muito grande. O ato de escutar essa mulher também melhora a dor.”

Para ele, só será possível dizer que a unha-de-gato funciona depois de testá-la em mais estudos.

TERAPIA GÊNICA

Uma outra linha de pesquisa desenvolvida na Unifesp aponta que há mutações genéticas envolvidas na endometriose. Uma delas, chamada de P27, foi descoberta pela equipe de Schor.

A presença dessa mutação aumenta duas vezes as chances de a mulher ter a doença. “O P27 faz com que as células fiquem mais “nervosas” e proliferem mais do que o normal”, diz Schor.

A partir dessas descobertas, o grupo trabalha no desenvolvimento de instrumentos de terapia gênica para tratar a endometriose.

“O uso de adenovírus [vírus modificados] carregando genes que restabelecem a normalidade genética já foi testado em cultura de células de endometriose e os resultados foram promissores”, conta Schor.

Fonte: Folha.com

Anvisa proíbe importação de produtos de emagrecimento

23 dez

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a importação e comercialização de produtos que contenham em sua composição o insumo Caralluma Fimbriata e de produtos da marca Divine Shen. Ambos são utilizados na perda de peso e serão retirados do mercado. A determinação, divulgada na segunda-feira, foi publicada nesta terça-feira no Diário Oficial da União.

O primeiro produto prometia acelerar a perda de peso, enquanto o segundo era capaz de reduzir a vontade do indivíduo de se alimentar. A determinação, já em vigor, vale para todo o território nacional.

Caralluma Fimbriata
A Anvisa afirmou que nenhum produto que contenha em sua composição a Caralluma Fimbriata encontra-se regularizado no País. Segundo a agência, o consumidor deve abandonar o consumo, pois a sua composição não foi analisada.

A primeira ação da Anvisa em relação às falsas alegações de propriedades relacionadas ao emagrecimento foi tomada em maio deste ano, quando houve a proibição de propaganda de insumos anunciados como naturais e com propriedade capazes de acelerar a perda de peso.

Divine Shen
A medida quanto ao produto Divine Shen, preventiva, vale até que seja esclarecido como algo registrado como alimento foi misturado ao medicamento Sibutramina, cuja ação no sistema nervoso central pode reduzir a sensação de fome. A 2ª Promotoria de Justiça Criminal iniciou a apuração depois de receber a denúncia de que o produto, proveniente da China, estaria adulterado.

Sibutramina é uma substância usada no tratamento da obesidade e controla a vontade de se alimentar. Porém, de acordo com a Anvisa, estudos europeus mostraram que pacientes com histórico de doença cardiovascular podem ter aumentado o risco de doença coronariana, acidente vascular cerebral, taquicardia e aumento da pressão arterial quando expostos ao medicamento.

A Anvisa notificará Organização Mundial da Saúde e a Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a decisão, para que a medida tomada não seja classificada como uma violação ao comércio internacional. A agência também fará contato com as autoridades chinesas para obter informações sobre o produto.

Fonte: Redação Terra

Fitoterapia

16 nov

As plantas medicinais vêm sendo utilizadas pelo homem ao longo de toda a história da humanidade no tratamento e cura de enfermidades. É uma prática que nasceu provavelmente na pré-história, quando, a partir da observação do comportamento dos animais na cura de suas feridas e doenças, os homens descobriram as propriedades curativas das plantas e começaram a utilizá-las, levando ao acúmulo de conhecimentos empíricos que foram passados de geração para geração (FERRO, 2006).

Histórico

Os indícios sobre a prática da Fitoterapia são muito antigos e encontrados em todo o mundo. O primeiro manuscrito conhecido sobre essa prática é o Papiro de Ebers (1500 a.C.), que descreve centenas de plantas medicinais. No Egito, várias plantas são mencionadas nos papiros, e na Grécia, Teofrasto (372-285 a.C.), discípulo de Aristóteles (384-322 a.C.), catalogou cerca de 500 espécies vegetais. Hipócrates (460-361 a.C.), considerado o pai da medicina, utilizava drogas de origem vegetal em seus pacientes e deixou uma obra – Corpus Hippocraticum, que é considerada a mais clara e completa da Antiguidade no que se refere à utilização de plantas medicinais (ALMASSY JÚNIOR et al. 2005; ALONSO, 1998; WAGNER e WISENAUER, 2006).
Durante muito tempo, as plantas medicinais foram utilizadas em rituais religiosos e na cura de doentes pelos curandeiros e feiticeiros. O pensamento hipocrático estabeleceu uma concepção holística do Universo e do homem, visando o tratamento do indivíduo e não apenas da doença.  Já na Idade Média, a concepção de mundo máquina levou à difamação daqueles que detinham o conhecimento sobre as plantas medicinais, considerados como bruxos e condenados à fogueira (ALMASSY JÚNIOR et al. 2005; ALONSO, 1998; ALVIM et al. 2006).
Na Idade Moderna, com o desenvolvimento da pesquisa e metodologia, as terapêuticas sem base científica, como a Fitoterapia, foram marginalizadas (ALMASSY JÚNIOR et al. 2005, p.19-22; ALVIM et al. 2006).
No mundo, a Fitoterapia desenvolveu-se dentro das Medicinas Chinesa e Ayurvédica. A Fitomedicina na Europa tornou-se uma forma de tratamento predominante. No Brasil, a terapêutica popular foi desenvolvida com as contribuições dos negros, indígenas e portugueses (ALMASSY JÚNIOR et al. 2005; ALVIM et al. 2006; WAGNER e WISENAUER, 2006).
A partir do século XX, o desenvolvimento da indústria farmacêutica e os processos de produção sintética dos princípios ativos existentes nas plantas contribuíram para a desvalorização do conhecimento tradicional (ALMASSY JÚNIOR et al. 2005; ALONSO, 1998; WAGNER e WISENAUER, 2006).
Ao final da década de 1970, a Organização Mundial da Saúde (OMS) cria o Programa de Medicina Tradicional, com objetivos de proteger e promover a saúde dos povos do mundo, incentivando a preservação da cultura popular sobre os conhecimentos da utilização de plantas medicinais e da Medicina Tradicional (BRASIL, 2006; WHO, 2002;)
A OMS recomenda aos estados-membros “o desenvolvimento de políticas públicas para facilitar a integração da medicina tradicional e da medicina complementar alternativa nos sistemas nacionais de atenção à saúde, assim como promover o uso racional dessa integração” (BRASIL, 2006). Para isso, são necessários promover a segurança, eficácia, qualidade, acesso e uso racional dessas práticas (WHO, 2002).
Em 1989 foi fundada a ESCOP (European Scientific Cooperative on Phytotherapy) – Cooperativa Científica Européia de Fitoterapia –, com os objetivos de estabelecer critérios harmônicos para o acesso aos produtos fitoterápicos, dar suporte para a pesquisa científica e contribuir para a aceitação da Fitoterapia na Europa (SCHILCHER, 2005).
Em 1978, foi estabelecida a Comissão E, uma divisão da Agência Federal de Saúde da Alemanha que coleta informações sobre as plantas medicinais e as avalia de acordo com a segurança e eficácia. É responsável pelo registro e preparação de fitofármacos, processa os dados científicos funcionais das preparações das plantas e ervas medicinais para produzir monografias. A Comissão E combina dados científicos com conhecimento tradicional, e publicou cerca de 300 monografias (SCHILCHER, 2005; WHO, 1998).
A OMS lançou três volumes de monografias de plantas medicinais, fruto de uma ampla revisão sistemática da literatura científica e revisão de especialistas do mundo inteiro, com objetivos de auxiliar a segurança e efetividade no uso da Fitoterapia nos sistemas de saúde (WHO, 1999; WHO, 2001; WHO, 2007).
Em 2006, foi criado no Brasil o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, com objetivo de “garantir à população brasileira o acesso seguro e uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos, promovendo o uso sustentável da biodiversidade, o desenvolvimento da cadeia produtiva e da indústria nacional” (BRASIL, 2006).

Conceito

A Fitoterapia é uma palavra que une dois radicais gregos: “phyton”, que significa planta, e “therapia”, tratamento.  É a terapêutica caracterizada pelo uso de plantas medicinais em suas diferentes formas farmacêuticas, sem a utilização de substâncias ativas isoladas, ainda que de origem vegetal (BRASIL, 2006).

Formas de atuação

As plantas medicinais possuem princípios ativos, ou seja, compostos químicos produzidos durante o metabolismo da planta, que lhe conferem a ação terapêutica (WAGNER e WISENAUER, 2006). Há diversas formas de utilização, que dependem da parte do vegetal a ser utilizada, do tipo de efeito desejado e da enfermidade a ser tratada (NA).
As plantas medicinais podem ser utilizadas sob a forma de infusão, decocção, maceração, tintura, extratos fluido, mole ou seco, pomadas, cremes, xaropes, inalação, cataplasma, compressa, gargarejo ou bochecho (WAGNER e WISENAUER, 2006).

Contra-indicações

A utilização de plantas medicinais não é isenta de efeitos colaterais, interações medicamentosas ou contra-indicações. Apresentam substâncias que podem ser tóxicas, desencadeando reações adversas. Além disso, a utilização da dose incorreta, da parte da planta indevida ou auto-medicação errônea podem causar efeitos colaterais indesejáveis (TUROLLA e NASCIMENTO, 2006).
São necessárias medidas de conscientização da população e educação dos profissionais de saúde para que o uso racional das plantas medicinais seja disseminado. Há grupos como crianças, idosos, lactantes, gestantes e portadores de doenças graves que merecem atenção especial e não podem utilizar a Fitoterapia de maneira indiscriminada, devendo levar em consideração as dosagens e contra-indicações. Além disso, é importante ressaltar que há possibilidades de interação medicamentosa entre a Fitoterapia e o uso de alopáticos, tornando ainda mais necessária a conscientização da população e o cuidado com a auto-medicação (NA).

Referências

ALMASSY JÚNIOR, Alexandre; LOPES, Reginalda Célia; ARMOND, Cíntia; da SILVA, Francieli; CASALI, Vicente Wagner Dias. Folhas de Chá – plantas medicinais na Terapêutica Humana. UFV: Viçosa, 2005.

ALONSO, Jorge. Tratado de Fitomedicina: Bases clínicas e farmacológicas. Argentina, Rosário: Corpus Libros, 1998.

ALVIM et al. O uso de plantas medicinais como recurso terapêutico: das influências da formação profissional às implicações éticas e legais de sua aplicabilidade como extensão da prática de cuidar realizada pela enfermeira. Rev Latino-am Enfermagem, v.14, n.3, mai./jun. 2006. Disponível em www.eerp.usp.br/rlae. Acesso em 01.set.2007.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Brasília, DF, 2006b.

FERRO, Degmar. Fitoterapia: conceitos clínicos. São Paulo: Atheneu, 2006.

SCHILCHER, Heinz. Fitoterapia na Pediatria – Guia para médicos e farmacêuticos. Alfenas: Ciência Brasilis, 2005.

TUROLLA, Mônica Silva dos Reis; NASCIMENTO, Elizabeth de Souza. Informações toxicológicas de alguns fitoterápicos utilizados no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Farmacêuticas, v. 42, n. 2, abr./jun., 2006.

WAGNER, Hildebert e WISENAUER, Markus. Fitoterapia – Fitofármacos, Farmacologia e Aplicações Clínicas. 2.ed. São Paulo: Pharmabooks, 2006.

WHO. Guidelines for the appropriate use of herbal medicines. Manila: WHO, 1998.

______. Who Monographs on Selected Medicinal Plants, v. 1. Geneva: WHO, 1999.

______. Who Monographs on Selected Medicinal Plants, v .2. Geneva: WHO, 2001.  

______. Traditional medicine strategy 2002-2005. Geneva, 2002.65p.

______. Who Monographs on Selected Medicinal Plants, v. 3. Geneva: WHO, 2007.

 

Karina Mendes Parlangelo
Formada em Naturologia pela Universidade Anhembi Morumbi. Pós-graduanda em Fitoterapia pela FACIS
Fonte: APANAT

Reserva em Minas Gerais conserva uma coleção de plantas medicinais

1 nov

Reportagem exibida no Globo Rural neste domingo, 31/10/2010

Um grupo de voluntários criou uma reserva em Minas Gerais para conservar coleção de plantas medicinais com grande potencial para a saúde.

Casca de árvore com poder cicatrizante; outra para controle da depressão; batata antiinflamatória. Há uma farmácia dentro do cerrado brasileiro com uma coleção de plantas medicinais com grande potencial para a saúde.

Para conservar essa riqueza genética, um grupo de voluntários criou uma reserva em Minas Gerais. Após anos de trabalho, a bióloga Valéria Conde fez um convite para o Globo Rural ir até o lugar. Quem conta essa história são os repórteres Camila Marconato e Sandro Queiroz.

Dez anos atrás, passarinho não estaria se refestelando em fartura de comida. Tucano não teria onde pousar, pelo menos não nestas terras.
A volta da fauna na região já é resultado do trabalho de recuperação de uma antiga área de pastagem no município de Araxá, no triângulo mineiro.

Em 2000, trinta e sete hectares de pasto se transformaram na Reserva Ecocerrado Brasil, com o objetivo de conservar espécies de plantas medicinais, principalmente do cerrado.

“É uma unidade de conservação. É uma reserva particular do patrimônio natural”, disse a bióloga Valéria Conde.

A bióloga, que é diretora executiva da reserva, foi quem escreveu para o Globo Rural. “Decidi compartilhar com outras pessoas e com todo o país sobre o trabalho de conservação do cerrado e as plantas medicinais”, justificou.

Esse trabalho se deve ao desprendimento de muita gente. Todo mundo é voluntário. A área da reserva foi doada.

Mesmo antes de doar as terras para a formação da reserva, seu Ismael e dona Lurdinha Honorato já lidavam com plantas medicinais.

“Quase que tem dois mil anos. Acreditando na reencarnação, que eu sou espírita, deve ser mais ou menos isso. É impressionante. A gente sai com raizeiro para procurar determinada erva, ele chega na erva e fala: não é isso? E não é que é?”, contou dona Lurdinha.

“Eu adoro fazer esse trabalho”, disse seu Ismael.

Raizeiro é como o pessoal chama os curandeiros conhecedores de plantas, ervas e raízes. Mas esse termo que está mudando.

“Hoje, são fitoterapeutas, que é mais chique. Subimos de posto. De raizeiros, agora somos fitoterapeutas”, brincou dona Lurdinha.

Há 25 anos, o grupo de voluntários prepara e distribui gratuitamente medicamentos naturais para a população de baixa renda.

“Nós sempre tivemos uma horta muito farta de plantas medicinais e alguma coisa nós buscávamos no campo. Com o passar do tempo, a gente viu que o campo ia extinguir. E a gente, como gosta de preservar, aí veio a ideia da reserva”, explicou Valéria.

Desde então, o que não falta pela reserva é trabalho. O primeiro passo para recuperar uma área degradada é proteger as águas, as nascentes. Na reserva, quem fez esse serviço foi seu Ismael. “O primeiro passo foi cercar a área das nascentes. Cercamos e a mata se recompôs. Nós introduzimos também algumas espécies para ajudar”, esclareceu seu Ismael.

O resultado foi o grande aumento do volume de água das três nascentes da reserva. Então, o pessoal passou a semear as plantas medicinais.

Tem só um probleminha que continua sem solução. “Tem uma espécie que a gente queria que acabasse e num acaba nunca, que é o capim braquiária. É o grande transtorno, inclusive de outras unidades de conservação”, disse a bióloga.

A reserva também é fruto de um encontro, que hoje já se transformou em parceria. No lugar, a sabedoria popular e a ciência caminham juntas.

A química Ana Maria Pereira é pesquisadora da Unaerp, Universidade de Ribeirão Preto, em São Paulo. Há anos, ela se dedica ao estudo de plantas medicinais. Ana Maria soube do trabalho realizado em Araxá e ficou encantada.

“O seu Ismael é um homem que tem um vasto conhecimento sobre plantas medicinais. Nós julgamos interessante unir o conhecimento que ele trazia com o conhecimento que nós tínhamos na universidade”, disse a doutora Ana Maria.

Todo mundo aprende com todo mundo. A doutora Ana Maria ensinou que a alfavaca se colhe de meio-dia às duas da tarde. “Ela concentra o maior número de princípios ativos. Antes, a gente coletava em qualquer horário. Não tinha um horário especifico”, lembrou seu Ismael.

O seu Ismael aprende e ensina. O seu Ismael tem nos ensinado que as plantas medicinais, cujo principio ativo está na raiz, se plantadas na lua minguante também vão produzir muito mais matéria seca e princípios ativos do que plantado em outra lua. Essa é uma informação que estamos pesquisando para ver se há possibilidade de confirmar cientificamente”, explicou a doutora.

A reserva conta hoje com cerca de 150 espécies de plantas medicinais. Muitas com grande potencial, segundo a doutora Ana Maria.“Essa planta, certamente, será num futuro muito próximo um dos fitoterápicos mais comercializados no Brasil. Ela é conhecida como mulungu. O nome científico é erythrina mulungu. Ela serve para depressão”, avisou doutora Ana Maria.

Mas não tem só árvore no cerrado. As mais de 700 espécies catalogadas no bioma, são, em sua maioria, ervas e plantinhas rasteiras, como a mandevilla velutina, que tem um nome popular bem sugestivo: batata-infalível.

“Essa batata tem uma substância chamada velutinol, que tem um poder antiinflamatório espetacular. O medicamento é feito a partir da massa do sistema radicular da espécie. Nós coletamos a planta depois que ela produz a semente. Você coleta a planta, faz o medicamento, mas você tem a semente para plantar novamente. Aí você conserva o material e ela não entra em extinção. É o uso sustentável”, esclareceu a doutora Ana Maria.

A conservação genética do barbatimão, um cicatrizante poderoso, é outro trabalho muito importante desenvolvido. A reserva mantém um banco de germoplasma da espécie stryphnodendron adstringens, nativa do cerrado.
“Viajamos 22 mil quilômetros mapeando essa espécie e conhecendo a ocorrência dela, seu habitat natural em vários ecossistemas, consistindo de 1,4 mil mudas no banco”, explicou Valéria.

Plaquinhas indicam o local de origem das árvores, semeadas há três anos. O banco genético foi financiado por uma indústria farmacêutica, que comprou o direito de comercialização de uma pomada cicatrizante à base de barbatimão desenvolvida pela equipe de pesquisa da Unaerp.

“As sementes que saírem desse banco terão todo vigor da espécie, da diversidade genética da espécie. Quando nós entregarmos essas mudas aos produtores que vão produzir em grande escala essa espécie, nós vamos estar entregando um material geneticamente excelente para a manutenção da espécie”, explicou Ana Maria.

Frequentemente, os voluntários da reserva fazem incursões ao campo na companhia de raizeiros, como seu Amador Tiburcio Borges, profundo conhecedor das espécies medicinais.

No dia em que estávamos realizando a reportagem, o pessoal foi coletar mudas de rabo de tatu, planta que nem os voluntários mais antigos conheciam e que seu amador usa para tratar do diabetes.

Paramos num cerrado de beira de estrada. Sem a ajuda do raizeiro, identificar o tal rabo de tatu no campo ainda é complicado, mas com ele parece fácil. “Graças a Deus, eu conheço remédio demais. Todo jeito que a pessoa clamar que sente, eu sei o remédio”, avisou seu Amador.

O seu Amador tem 68 anos e um jeito bem mineirinho de prosear. No tempo da minha criação, não tinha esse negócio de adoecer e levar para o médico. Sarava em casa, com remédio caseiro. A floresta oferece muita coisa. A minha mãe conhecia tudo quanto era chá”, recordou.

Os voluntários da reserva começam a encher os vasos com as mudas de rabo de tatu. Valéria prepara uma ficha com nome popular da espécie e sua localização exata. Um GPS ajuda. Ela separa três exemplares de rabo de tatu e embala separadamente.

“Uma eu vou mandar para a universidade com uma amostra da planta para fazer os ensaios fitoquímicos; uma para o taxonomista, que faz a identificação; e a outra fica no herbário da reserva. Agora, a participação de pessoas como o seu Amador nesse trabalho é fundamental. A gente não chega a campo e pega qualquer planta. Tem que ter uma indicação. A partir dessa indicação do conhecimento popular a gente desenvolve o trabalho científico em cima dessa planta”, reconheceu Valéria.

Todo esse trabalho ajuda a evitar que plantas com possibilidades medicinais desapareçam junto com as áreas de cerrado.

Além do trabalho realizado em parceria com os raizeiros, uma vez por semana os voluntários da reserva percorrem a região de Araxá e entorno para fazer o que eles chamam de resgate.

Não é a primeira vez que o pessoal faz coleta nessa área, que o dono já conseguiu autorização para desmatar e fazer lavoura. Por isso, eles sabem que todo cuidado é pouco.

Os voluntários se dividem. As espécies medicinais encontradas são colocadas em vasos, que, depois, vão para a reserva.

“Aqui é um campo que tem muita planta medicinal. Em cinco metros de área, deve ter dez tipos de planta medicinal”, disse seu Ismael.

Tem amendoim do campo, pára-tudo, cajuzinho, barbatimão e gritadeira. Mas a prioridade hoje é o sene. “Um dos últimos lugares que a gente está conseguindo é aqui. Por isso, hoje estamos correndo atrás”, justificou seu Ismael.

Algumas horas e missão cumprida. Essas e outras mudas são plantadas na reserva num outro dia de mutirão. Todo segundo domingo do mês, os voluntários se reúnem para limpar o terreno, plantar e colher.

Conhecemos o doutor Raul Conde, pai da Valéria, que luta contra a braquiária que teima em abafar as mudas que ele plantou. “Todas as plantas que nós plantamos aqui, nós temos que fazer isso umas duas vezes por ano”, contou.

O doutor Raul é médico. Aos 84 anos, com 50 só de medicina, ele contou que sempre acreditou no potencial das plantas medicinais. “A fitoterapia deve ser utilizada também com os cuidados por quanto existem plantas que são extremamente tóxicas. A losna, por exemplo, é um antialérgico muito potente e eficiente que tem que ser utilizado com muito critério para que não ultrapasse a dose que seja tóxica. Não é tomar o chá sem ter noção dos efeitos que poderão advir”, alertou.

Toda matéria prima colhida na reserva é doada para laboratórios de fitoterapia que distribuem a medicação gratuitamente. Um deles, em Araxá, atende uma média de 500 pessoas por mês. Para dar conta da demanda são necessários 250 litros de medicamento, que sai quase todo da reserva.

O químico Fernando Ceolin, um dos responsáveis pela produção dos medicamentos, reforça os cuidados que devem ser tomados por quem usa plantas como remédio. “Essa ideia de que as plantas naturais não fazem mal, não possa provocar nada, não é verdadeira. Aí entra a questão da dosagem. Uma dosagem errada pode causar problema”, orientou.

A distribuição gratuita do medicamento é só uma das pontas desse trabalho, que, para essas pessoas tornou-se filosofia de vida.

“A partir da hora que nós nascemos nesse planeta, somos consumidores dele: do ar, do solo e da água. O que eu estou fazendo para retribuir? A Reserva Ecocerrado Brasil é o nosso espaço de retribuição”, disse Valéria.

Fonte: GLOBO RURAL

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