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Reserva em Minas Gerais conserva uma coleção de plantas medicinais

1 nov

Reportagem exibida no Globo Rural neste domingo, 31/10/2010

Um grupo de voluntários criou uma reserva em Minas Gerais para conservar coleção de plantas medicinais com grande potencial para a saúde.

Casca de árvore com poder cicatrizante; outra para controle da depressão; batata antiinflamatória. Há uma farmácia dentro do cerrado brasileiro com uma coleção de plantas medicinais com grande potencial para a saúde.

Para conservar essa riqueza genética, um grupo de voluntários criou uma reserva em Minas Gerais. Após anos de trabalho, a bióloga Valéria Conde fez um convite para o Globo Rural ir até o lugar. Quem conta essa história são os repórteres Camila Marconato e Sandro Queiroz.

Dez anos atrás, passarinho não estaria se refestelando em fartura de comida. Tucano não teria onde pousar, pelo menos não nestas terras.
A volta da fauna na região já é resultado do trabalho de recuperação de uma antiga área de pastagem no município de Araxá, no triângulo mineiro.

Em 2000, trinta e sete hectares de pasto se transformaram na Reserva Ecocerrado Brasil, com o objetivo de conservar espécies de plantas medicinais, principalmente do cerrado.

“É uma unidade de conservação. É uma reserva particular do patrimônio natural”, disse a bióloga Valéria Conde.

A bióloga, que é diretora executiva da reserva, foi quem escreveu para o Globo Rural. “Decidi compartilhar com outras pessoas e com todo o país sobre o trabalho de conservação do cerrado e as plantas medicinais”, justificou.

Esse trabalho se deve ao desprendimento de muita gente. Todo mundo é voluntário. A área da reserva foi doada.

Mesmo antes de doar as terras para a formação da reserva, seu Ismael e dona Lurdinha Honorato já lidavam com plantas medicinais.

“Quase que tem dois mil anos. Acreditando na reencarnação, que eu sou espírita, deve ser mais ou menos isso. É impressionante. A gente sai com raizeiro para procurar determinada erva, ele chega na erva e fala: não é isso? E não é que é?”, contou dona Lurdinha.

“Eu adoro fazer esse trabalho”, disse seu Ismael.

Raizeiro é como o pessoal chama os curandeiros conhecedores de plantas, ervas e raízes. Mas esse termo que está mudando.

“Hoje, são fitoterapeutas, que é mais chique. Subimos de posto. De raizeiros, agora somos fitoterapeutas”, brincou dona Lurdinha.

Há 25 anos, o grupo de voluntários prepara e distribui gratuitamente medicamentos naturais para a população de baixa renda.

“Nós sempre tivemos uma horta muito farta de plantas medicinais e alguma coisa nós buscávamos no campo. Com o passar do tempo, a gente viu que o campo ia extinguir. E a gente, como gosta de preservar, aí veio a ideia da reserva”, explicou Valéria.

Desde então, o que não falta pela reserva é trabalho. O primeiro passo para recuperar uma área degradada é proteger as águas, as nascentes. Na reserva, quem fez esse serviço foi seu Ismael. “O primeiro passo foi cercar a área das nascentes. Cercamos e a mata se recompôs. Nós introduzimos também algumas espécies para ajudar”, esclareceu seu Ismael.

O resultado foi o grande aumento do volume de água das três nascentes da reserva. Então, o pessoal passou a semear as plantas medicinais.

Tem só um probleminha que continua sem solução. “Tem uma espécie que a gente queria que acabasse e num acaba nunca, que é o capim braquiária. É o grande transtorno, inclusive de outras unidades de conservação”, disse a bióloga.

A reserva também é fruto de um encontro, que hoje já se transformou em parceria. No lugar, a sabedoria popular e a ciência caminham juntas.

A química Ana Maria Pereira é pesquisadora da Unaerp, Universidade de Ribeirão Preto, em São Paulo. Há anos, ela se dedica ao estudo de plantas medicinais. Ana Maria soube do trabalho realizado em Araxá e ficou encantada.

“O seu Ismael é um homem que tem um vasto conhecimento sobre plantas medicinais. Nós julgamos interessante unir o conhecimento que ele trazia com o conhecimento que nós tínhamos na universidade”, disse a doutora Ana Maria.

Todo mundo aprende com todo mundo. A doutora Ana Maria ensinou que a alfavaca se colhe de meio-dia às duas da tarde. “Ela concentra o maior número de princípios ativos. Antes, a gente coletava em qualquer horário. Não tinha um horário especifico”, lembrou seu Ismael.

O seu Ismael aprende e ensina. O seu Ismael tem nos ensinado que as plantas medicinais, cujo principio ativo está na raiz, se plantadas na lua minguante também vão produzir muito mais matéria seca e princípios ativos do que plantado em outra lua. Essa é uma informação que estamos pesquisando para ver se há possibilidade de confirmar cientificamente”, explicou a doutora.

A reserva conta hoje com cerca de 150 espécies de plantas medicinais. Muitas com grande potencial, segundo a doutora Ana Maria.“Essa planta, certamente, será num futuro muito próximo um dos fitoterápicos mais comercializados no Brasil. Ela é conhecida como mulungu. O nome científico é erythrina mulungu. Ela serve para depressão”, avisou doutora Ana Maria.

Mas não tem só árvore no cerrado. As mais de 700 espécies catalogadas no bioma, são, em sua maioria, ervas e plantinhas rasteiras, como a mandevilla velutina, que tem um nome popular bem sugestivo: batata-infalível.

“Essa batata tem uma substância chamada velutinol, que tem um poder antiinflamatório espetacular. O medicamento é feito a partir da massa do sistema radicular da espécie. Nós coletamos a planta depois que ela produz a semente. Você coleta a planta, faz o medicamento, mas você tem a semente para plantar novamente. Aí você conserva o material e ela não entra em extinção. É o uso sustentável”, esclareceu a doutora Ana Maria.

A conservação genética do barbatimão, um cicatrizante poderoso, é outro trabalho muito importante desenvolvido. A reserva mantém um banco de germoplasma da espécie stryphnodendron adstringens, nativa do cerrado.
“Viajamos 22 mil quilômetros mapeando essa espécie e conhecendo a ocorrência dela, seu habitat natural em vários ecossistemas, consistindo de 1,4 mil mudas no banco”, explicou Valéria.

Plaquinhas indicam o local de origem das árvores, semeadas há três anos. O banco genético foi financiado por uma indústria farmacêutica, que comprou o direito de comercialização de uma pomada cicatrizante à base de barbatimão desenvolvida pela equipe de pesquisa da Unaerp.

“As sementes que saírem desse banco terão todo vigor da espécie, da diversidade genética da espécie. Quando nós entregarmos essas mudas aos produtores que vão produzir em grande escala essa espécie, nós vamos estar entregando um material geneticamente excelente para a manutenção da espécie”, explicou Ana Maria.

Frequentemente, os voluntários da reserva fazem incursões ao campo na companhia de raizeiros, como seu Amador Tiburcio Borges, profundo conhecedor das espécies medicinais.

No dia em que estávamos realizando a reportagem, o pessoal foi coletar mudas de rabo de tatu, planta que nem os voluntários mais antigos conheciam e que seu amador usa para tratar do diabetes.

Paramos num cerrado de beira de estrada. Sem a ajuda do raizeiro, identificar o tal rabo de tatu no campo ainda é complicado, mas com ele parece fácil. “Graças a Deus, eu conheço remédio demais. Todo jeito que a pessoa clamar que sente, eu sei o remédio”, avisou seu Amador.

O seu Amador tem 68 anos e um jeito bem mineirinho de prosear. No tempo da minha criação, não tinha esse negócio de adoecer e levar para o médico. Sarava em casa, com remédio caseiro. A floresta oferece muita coisa. A minha mãe conhecia tudo quanto era chá”, recordou.

Os voluntários da reserva começam a encher os vasos com as mudas de rabo de tatu. Valéria prepara uma ficha com nome popular da espécie e sua localização exata. Um GPS ajuda. Ela separa três exemplares de rabo de tatu e embala separadamente.

“Uma eu vou mandar para a universidade com uma amostra da planta para fazer os ensaios fitoquímicos; uma para o taxonomista, que faz a identificação; e a outra fica no herbário da reserva. Agora, a participação de pessoas como o seu Amador nesse trabalho é fundamental. A gente não chega a campo e pega qualquer planta. Tem que ter uma indicação. A partir dessa indicação do conhecimento popular a gente desenvolve o trabalho científico em cima dessa planta”, reconheceu Valéria.

Todo esse trabalho ajuda a evitar que plantas com possibilidades medicinais desapareçam junto com as áreas de cerrado.

Além do trabalho realizado em parceria com os raizeiros, uma vez por semana os voluntários da reserva percorrem a região de Araxá e entorno para fazer o que eles chamam de resgate.

Não é a primeira vez que o pessoal faz coleta nessa área, que o dono já conseguiu autorização para desmatar e fazer lavoura. Por isso, eles sabem que todo cuidado é pouco.

Os voluntários se dividem. As espécies medicinais encontradas são colocadas em vasos, que, depois, vão para a reserva.

“Aqui é um campo que tem muita planta medicinal. Em cinco metros de área, deve ter dez tipos de planta medicinal”, disse seu Ismael.

Tem amendoim do campo, pára-tudo, cajuzinho, barbatimão e gritadeira. Mas a prioridade hoje é o sene. “Um dos últimos lugares que a gente está conseguindo é aqui. Por isso, hoje estamos correndo atrás”, justificou seu Ismael.

Algumas horas e missão cumprida. Essas e outras mudas são plantadas na reserva num outro dia de mutirão. Todo segundo domingo do mês, os voluntários se reúnem para limpar o terreno, plantar e colher.

Conhecemos o doutor Raul Conde, pai da Valéria, que luta contra a braquiária que teima em abafar as mudas que ele plantou. “Todas as plantas que nós plantamos aqui, nós temos que fazer isso umas duas vezes por ano”, contou.

O doutor Raul é médico. Aos 84 anos, com 50 só de medicina, ele contou que sempre acreditou no potencial das plantas medicinais. “A fitoterapia deve ser utilizada também com os cuidados por quanto existem plantas que são extremamente tóxicas. A losna, por exemplo, é um antialérgico muito potente e eficiente que tem que ser utilizado com muito critério para que não ultrapasse a dose que seja tóxica. Não é tomar o chá sem ter noção dos efeitos que poderão advir”, alertou.

Toda matéria prima colhida na reserva é doada para laboratórios de fitoterapia que distribuem a medicação gratuitamente. Um deles, em Araxá, atende uma média de 500 pessoas por mês. Para dar conta da demanda são necessários 250 litros de medicamento, que sai quase todo da reserva.

O químico Fernando Ceolin, um dos responsáveis pela produção dos medicamentos, reforça os cuidados que devem ser tomados por quem usa plantas como remédio. “Essa ideia de que as plantas naturais não fazem mal, não possa provocar nada, não é verdadeira. Aí entra a questão da dosagem. Uma dosagem errada pode causar problema”, orientou.

A distribuição gratuita do medicamento é só uma das pontas desse trabalho, que, para essas pessoas tornou-se filosofia de vida.

“A partir da hora que nós nascemos nesse planeta, somos consumidores dele: do ar, do solo e da água. O que eu estou fazendo para retribuir? A Reserva Ecocerrado Brasil é o nosso espaço de retribuição”, disse Valéria.

Fonte: GLOBO RURAL

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